Taninos condensados na nutrição de peixes: evidências crescentes de efeitos funcionais
Taninos condensados na nutrição de peixes: evidências crescentes de efeitos funcionais
Por muitos anos, os taninos condensados (TC) foram discutidos na nutrição animal principalmente pelo seu potencial antinutricional. Hoje, no entanto, evidências vêm mostrando que, em baixas doses e oriundos de fontes bem caracterizadas, esses compostos podem exercer efeitos biológicos interessantes em peixes.
Em estudos conduzidos com tilápias do Nilo na ELOAQUA, diferentes fontes de TCs — incluindo pinheiro-bravo (Pinus pinaster), acácia-negra (Acacia mearnsii) e uma mistura fitogênica contendo taninos de semente de uva associados à yucca — têm revelado padrões convergentes de resposta.
Modulação da imunidade inata
Nos três estudos, foram observadas respostas consistentes em marcadores associados à imunidade inata.
No estudo com Pinus pinaster, verificou-se aumento da atividade de mieloperoxidase (MPO).
Com taninos de acácia-negra, especialmente na dose de 150 mg/kg, observaram-se aumentos na atividade de lisozima, mieloperoxidase e do sistema complemento, além de maior sobrevivência após desafio bacteriano.
Já no estudo com a mistura contendo TC de semente de uva associados à yucca, observou-se aumento do burst respiratório (NBT) e maior sobrevivência após desafio bacteriano.
Em conjunto, os resultados apontam para um possível efeito comum de estimulação ou modulação do sistema imune inato.
Respostas antioxidantes sem evidência de dano oxidativo
Outro ponto recorrente foi a ausência de sinais de maior dano oxidativo, mesmo quando respostas imunes foram estimuladas.
No estudo com Pinus pinaster, observou-se redução de catalase sem aumento em peroxidação lipídica (TBARS).
No estudo com acácia-negra, o tratamento mais promissor manteve respostas antioxidantes preservadas sem aumento de peroxidação.
No estudo com a mistura contendo semente de uva e yucca, também houve redução em TBARS e menor atividade de catalase em relação ao controle.
Embora os mecanismos ainda precisem ser melhor compreendidos, os três trabalhos sugerem modulação do equilíbrio redox sem evidências de estresse oxidativo agravado.
Crescimento e desempenho
Além dos efeitos fisiológicos, dois dos três estudos indicaram respostas positivas em desempenho zootécnico.
No estudo com taninos de acácia-negra, especialmente na menor dose avaliada (150 mg/kg), foi observado maior crescimento dos peixes, com melhora no ganho de peso em relação ao grupo controle.
Da mesma forma, no estudo com a mistura fitogênica contendo TC de semente de uva associados à yucca, observou-se aumento no peso final, ganho de peso e eficiência alimentar em comparação ao controle.
Embora o estudo com Pinus pinaster não tenha mostrado efeitos sobre crescimento, esses resultados sugerem que, dependendo da fonte e do nível de inclusão, taninos condensados podem contribuir não apenas para respostas fisiológicas e imunes e antioxidantes, mas também para desempenho produtivo.
Embora os resultados sejam promissores, é importante considerar que as respostas aos TC dependem de múltiplos fatores, incluindo a fonte vegetal utilizada, grau de pureza e composição do extrato, dose de inclusão, associação com outros compostos bioativos e possíveis interações com a própria matriz nutricional da dieta.
Esses fatores ajudam a explicar por que os efeitos observados podem variar entre estudos e reforçam que a avaliação desses compostos deve sempre considerar contexto e formulação.
Ainda assim, os resultados obtidos nos estudos conduzidos na ELOAQUA são consistentes com evidências recentes da literatura, que vêm apontando o potencial dos taninos condensados como aditivos funcionais na aquicultura, especialmente pela sua capacidade de modular respostas imunes, equilíbrio redox e, em determinadas condições, contribuir para desempenho e maior robustez frente a desafios sanitários.
Mais do que apenas compostos tradicionalmente associados a efeitos antinutricionais, os taninos condensados vêm se consolidando como uma classe de ingredientes de interesse para estratégias nutricionais voltadas à saúde e resiliência dos peixes.
*Agradecemos ao CNPq e ao MCTI pelo apoio neste projeto de pesquisa, fundamental para o avanço da pesquisa em aquicultura sustentável.